28 julho, 2008

Marcas que não marcam mais.

É costume estarmos todos trabalhando aqui na agência numa boa quando aparece um cliente com um grande problema e precisando urgentemente de uma marca nova. Se possível para hoje à tarde ainda.

Explicamos ao cara que não é bem assim, precisamos de um estudo, pesquisas, planejamentos para que a marca realmente venha a ser criada.
Junto com a marca é solicitado um slogan bem criativo (básico). Depois de dias de suor e trabalho, surge uma nova marca e um slogan. A marca é linda, digna de qualquer multinacional, coerente com todo o conceito da empresa do rapaz que pula de alegria ao ver o resultado, em sua mente passa algo do tipo:
-Aeeee....agora vai....mês que vem vou estar concorrendo com o Trump e deixe-me ver, no final do ano férias com toda família em Dubai.

E assim o cliente paga e sai feliz da vida com sua “nova” empresa. Durante o primeiro mês procuramos o cara para pensarmos em alguma ação, termos idéias para que a marca seja melhor trabalhada e etc...
O cara não nos atende, o primeiro mês foi ótimo e ele esta naquela correria atrás de produtos porque tudo foi vendido, afinal, novidade é novidade e não se fala mais nisso, ele não precisa mais de nossa ajuda agora.

Passam os meses até um dia em que toca o telefone da agência, advinha quem é?

-Pô, Voltou como era antes, não me adiantou nada a marca que vocês fizeram, pra falar a verdade nem gostei muito e .......

No começo, toda criança é apenas uma criança. Eu era um menino criança, você provavelmente era uma menina criança ou menino também. Todos iguais.
Conforme crescemos aprendemos coisas e nos especializamos de tal forma que criamos rótulos, ou melhor, MARCAS para organizar isso.

Vamos imaginar um menino que cresceu e foi buscar sua própria marca, ele tornou-se um designer gráfico, pronto! Ele agora é uma marca, tornou-se um designer e vai sair vendendo esta idéia de que é um designer para várias empresas a fim de conseguir um trabalho.
Porém imaginem vocês quantos meninos não cresceram e também se tornaram a marca designers. Ele descobre isso e então resolve fazer uma Pós-graduação, depois disso um MBA e por ai vai. Passamos à vida adquirindo rótulos e marcas para nos diferenciarmos e levarmos vantagens em algum ponto, ou melhor, para levarmos vantagem no momento final de escolha. Com produtos acontecem as mesmas coisas. No início produtos são produtos somente.

Um tênis da rainha é pouco diferente de um tênis da Nike, uma havaianas é pouco diferente de uma ipanema, mas o que vai marcar as características de uma e outra e identificar para o público vai ser a marca.

O problema é que estamos a tanto tempo fazendo isso, para ser mais exato, estamos desde 3.000 A.C criando marcas para tantas coisas que nos dias atuais esta tudo saturado. Preços são parecidos, quando você sai a rua esta em contato com mais ou menos 1.500 marcas, se for ao supermercado esse número vai para 3.000 marcas e por ai vai. As promessas são básicas para cada categoria e o mundo parece um grande ring de brigas por atenção dos consumidores.Agora me digam, como tem gente que consegue ser negligente ao ponto de não ligar para a própria marca e trabalhar isso de qualquer forma?Como disse, o tempo passa e o tempo voa.

Antigamente slogans e uma marca bonitinha resolviam as coisas, atualmente, isso é o básico de qualquer empresa que no mínimo tenha um produto e um trabalho sério. Hoje em dia, shapes tornaram-se marcas, moldes de alguma coisa, sons, cores, tudo isso se tornou marca também.

Para exemplificar o que estou falando, a Owens Corning, uma das maiores empresas de inovação em tecnologia de fibra de vidro do mundo, fundada em 1938. Patenteou em 1980 um tom de rosa que nenhum outro lugar usa ou pode usar agora que esta patenteada. Tudo isso porque o tom de rosa usado por eles durante anos tornou-se uma unidade para seus clientes o que levou inclusive a empresa utilizar a pantera cor-de-rosa como garoto propaganda e ícone. Mais atualmente a Ferrari patenteou o shape de carroceria da Ferrari F-50 por ser também algo inconfundível para seus clientes, ninguém mais no mundo vai poder fazer algo igual ou parecido com eles.

Outro bom exemplo é a Harley-Davidson, um ícone quando falamos de motos e estilo de vida no mundo todo. A Harley em Julho de 2000 patenteou o som do seu motor V-Twin por ser inconfundível e aliás, realmente é inconfundível, quem já ouviu uma moto dessas na rua sabe do que se trata. Com essa patente, imagina como fica a cara das outras fabricantes de moto que tem sons parecidos? No mínimo um golpe genial nos concorrentes.

Mas o maior e melhor exemplo de todos é o da Coca-Cola.Em 1960 a Coca registrou a sua garrafa mais tradicional. Hoje quando vemos a silhueta da garrafa da Coca ou somente o contorno sabemos que se trata do refrigerante mais famoso do mundo.
Aliás, essa embalagem ganha até hoje prêmios pelo mundo e é uma das poucas a ser condecorada com o prêmio de o melhor design de embalagens de todos os tempos.

Para todos no mundo dos negócios, o rápido ciclo entre um produto de valor tornar-se um produto genérico é um constante medo.

Num dia você esta com um produto premium nas prateleiras, aproveitando de boas vendas e batalhando consumidores. No outro dia as prateleiras estão cheias de produtos, promessas e preços como o seu e assim seu produto vai estar então na sessão de itens “especiais”.Essa é a rotina de muitas empresas e agências, os clientes não tem paciência de entenderem o porque de “tanto tempo” para se construir uma marca, as agências por necessidade atendem o cliente e pronto, estará traçada a lógica acima. E advinha para onde vão os créditos?

Temos de começar a entender e mais do que isso, fazer com que os clientes entendam que marcas comunicam-se emocionalmente com as pessoas, caso contrário, será apenas mais uma no meio. Isso leva tempo, estudo e principalmente um detalhe que muitas empresas não levam em conta por incrível que pareça, TEM DE ESCUTAR A VÓZ DO CONSUMIDOR.

Saber o que seus clientes desejam, o que eles esperam, quem são, o que fazem e qual o estilo de vida deles é importante, é como conquistar alguém para um namoro. Como você quer entrar na vida de alguém e fazer parte de seu dia-a-dia se você não conhece nada sobre essa pessoa, nada sobre seus interesses?Saber essas informações é a arma mais importante de um projeto, isso explica os esforços da Ferrari, Harley, Coca-Cola e tantas empresas que despejam bilhões de dólares “somente” para tornar o produto que seus clientes consomem únicos e exclusivos na face da terra para eles.

Entendam que marcas vai mais além dos slogans e desenhos bonitos, marcas foram criadas para diferenciar produtos e num mundo aonde tudo esta praticamente igual, inclusive as marcas. Outros ícones e símbolos que identificam seu produto com seus clientes devem ser tratados como marcas, tornando-se assim uma diferença unicamente sua que não pode ser copiada por mais ninguém no planeta.

Mais do que sentar em frente ao PC ou ao papel e procurar fazer um belo desenho, pesquise sobre seus clientes e tente entender o mundo que esta em volta dele e do que ele fabrica, entenda suas necessidades e ai sim comece a criar algo para realmente fazer um efeito diferente. E mantenha sempre em mente que assim como você esta fazendo neste momento, existe outras 1.250.000 pessoas pelo globo provavelmente pensando num case parecido com o seu e para a mesma categoria de produto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso é inteiramente verdade, tanto a parte de golpes de mestre (patentiando as características únicas que distinguem o produto) quanto a parte de CONHECER o cliente. Não é raro o caso em que o cliente da agência entra em crise apenas por um detalhe: falta de pesquisa. Muita gente ainda pensa que isso é inútil, banal ou que simplesmente sabe oque o seu público-alvo pensa e quer, bom, não é a toa que cedo ou tarde, essas empresas acabam se tornando obsoletas, pois o seu público-alvo muda de gostos, muda tendências e segue o rumo da vida: tudo muda e se transforma.

abraços!

-Rafael Ely